Todos os textos publicados neste blog são de autoria de Lilian Honda, exceto quando indicado o contrário (e, nesses casos, serão dados os devidos créditos ao autor).

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Desejo

Na livraria, em pé, equilibrando sacolas, bolsas e livros escolhidos ao acaso da leitura de um parágrafo, uma frase, duas ou três palavras de boa combinação. Olhando obsessivamente para os livros do alto, aqueles que não alcanço, e que de certeza serão os melhores, embora eu nem me dê ao trabalho de ler as lombadas. Antecipo o sufocamento, a falta de fôlego que algumas palavras me causam. Não leio os títulos nem autores, mas são aqueles que me escapam os que gostaria de ter. As palavras que me faltam são as que mais quero. Em pé, lágrimas que não escapam por pouco, hera apertando a garganta por dentro. Estão ali as palavras que se ausentam. No alto. A história que nunca lerei é a que mais me comove. Não me passa pela cabeça recorrer aos atendentes desatentos que conversam no balcão ali ao lado. Não saberia o que pedir. Nunca soube o que pedir, provavelmente porque não há palavras para o que quero. O que quis, quis assim, o do alto, o que só posso adivinhar ao longe. Se soubesse o nome, a palavra, então não seria aquilo. As lombadas enfileiram-se, cores, estampas, letras de diferentes famílias, em grupos de três, cinco, dois. A mais fina, a capa preta solitária, com letras que mal enxergo daqui, é aquela que me leva a desejar o livro. O cheiro do livro. Na página que seria aberta ao acaso, estaria lá o trecho que desataria as lágrimas, tão poucas palavras para dizer tanto. Ou nada. Comoção que salta de algumas letras enfileiradas. Não história de amor, não pai que encontra filha perdida. Nenhum fio condutor ou salto para a ficção. Está no alto, onde não alcanço. Quero o salto para o indizível. Quero que me adivinhem.

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: Utagawa Kuniyoshi, "Woman Reading", séc. XIX



 Escrito por Lílian Honda às 23h30 [ ] [ envie esta mensagem ]