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Até que a morte os separe
Existem amores que se estendem por toda uma vida. Arrisco dizer: "até que a morte os separe" vai além de uma possibilidade. Ou da ficção.
Talvez a dificuldade de reconhecer o grande amor esteja em nosso olhar adestrado pelas acanhadas fronteiras do romântico. O "para sempre" não cabe aí; não é compactado e estético, não é arquitetado para causar efeito, nem é um recorte preciso de autor para as páginas de um livro ― ainda que tenha sete volumes, como À la Recherche du Temps Perdu; ou mesmo que a muitos qualquer romance pareça uma leitura interminável.
Obra aberta sem a limitação material de nenhum suporte ou roteiro, o amor da vida inteira se faz de meios-tons, delicadezas, sutilezas e detalhes, como um infinito quebra-cabeça composto de minúcias do cotidiano. Não, não é cansativo. Não enjoa e não se desgasta, embora tenha momentos de entediante inverno. Mas é justamente aí, nos invernos, que o grande amor torna-se a xícara de chocolate quente e a manta de lã.
Eu vivo um grande amor assim e nunca escrevi sobre ele. Um quarto de século de convivência ininterrupta, dos quais vinte anos foram vividos sob o mesmo teto. Nunca houve um rompimento, embora eu tenha decidido morar numa casa só minha há algum tempo. Aconteceram, claro, incontáveis discussões, entre tolas e proveitosas, arranhões mútuos na vaidade, narizes torcidos, discordâncias variadas e desencontros de momentum. Somos sócios nos negócios e na existência. Somos, um para o outro, o ponto de certeza mutante suspenso sobre a vida que corre. E eu nunca escrevi para ele.
Um grande amor é, sobretudo, generoso. Cabem outras pessoas nessa massa cálida de afeto. Tive outros homens, até me casei certa vez; também ele casou-se novamente. Brincando à moda do Quintana, eu o amo tanto que até pela mulher dele sinto um certo quebranto. É sério: somos amigas, verdadeiramente. Já enxugamos as lágrimas uma da outra, fazemos piada uns dos outros, rimos muito juntos e ― pobre querido! ― freqüentemente eu e ela nos aliamos contra ele nas desavenças. E quem quer que entre nessa história terá seu confortável e exclusivo espaço, porque um grande amor não é táxi, que baixa a bandeira quando tem um passageiro.
Não vou aqui falar sobre as influências que tive sobre ele nesses anos todos. Foram muitas e eu saberia identificá-las perfeitamente e com orgulho. Quero fazer apenas uma prosaica elegia desprovida da métrica, das rimas e da elegância. Trivial como um amor da vida inteira tem de ser.
É ele quem me desembaraça dos emaranhados de todo tipo. É ele quem sempre tem algo certo, reto e profundo para me dizer, sem machucar ou ofender. É ele quem aceita meus repentes, minhas escolhas equivocadas, meus períodos taciturnos e minhas insatisfações crônicas. Reclamando e dando muitos palpites, claro, porque não é santo, mas está sempre lá para acolher sem censuras e proteger, se for preciso.
Empenhei meu lirismo a pessoas e amores transitórios, mas nunca escrevi para este homem fundamental e perene como inscrições rupestres. No entanto, foi ele quem afirmou e reafirmou esta minha vocação (à falta de palavra melhor), antes mesmo que eu pensasse nas letras como uma possibilidade. Assim como sempre valorizou cada uma das minhas virtudes, sem que eu ainda as tivesse percebido.
Ou, quem sabe, eu as fui construindo ― às virtudes ― só por saber que ele as tinha inventado. Talvez esteja aí a elegia concreta que pude oferecer.
Texto: Lílian Honda Imagem: Klim, Embrance

Escrito por Lílian Honda às 14h43
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