Todos os textos publicados neste blog são de autoria de Lilian Honda, exceto quando indicado o contrário (e, nesses casos, serão dados os devidos créditos ao autor).

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Alguma coisa acontece no meu coração...

A foto que ilustra esta página é de minha autoria e saiu no site do X Congresso Internacional da Cidades Educadoras.

Fez parte da programação do congresso a visita a diversas experiências educadoras paulistanas não relacionadas ao ensino formal, inclusive a inevitável ida à favela, que gringo ama  — não por acaso, o passeio mais concorrido. O sócio foi despachado para a favela de Heliópolis, a associada ficou com a turma que visitou um daqueles CEU-sei-lá-que-bairro-da-perifa e eu escolhi cobrir as "Trilhas do Centro", um passeio guiado pela professora de sociologia da USP, Fraya Frehse, a loura com pose de messias ali da foto. Da escola de samba, porém, não escapei... ossos do ofício.

Pois a Fraya costuma levar os seus alunos para uma interessantíssima redescoberta da cidade, a partir da comparação com os mesmos ângulos fotografados por Militão Azevedo, o célebre autor das mais antigas imagens de sampa. Em cada local, somos convidados a "ver" o que não mais existe e a entender o processo de destruição/reconstrução permamente desse caos a que chamamos de cidade.

O passeio ganhou mais de um significado, no meu caso. O olhar generoso e crítico que Fraya nos convida a lançar sobre as ruas do centro passou ainda pelo filtro da lente, na minha primeira reportagem alone. Largada por conta própria no meio dos gringos, tive que me virar para não perder os lances, para não me perder do grupo, para responder às perguntas dos transeuntes e moradores de rua que juntaram-se a nós e ainda prestar atenção à possibilidade não muito remota de ter meu equipamento roubado. Dirigiram-se a mim em inglês; acabei deduzindo que todo mundo acha que japa com máquina fotográfica na mão é turista estrangeiro.

Para minha surpresa, estive absolutamente zen não só ali, como durante todo o lufa-lufa do congresso, desde o primeiro clique até o final das cerca de 17 horas por dia de vigília. Meu único momento de apreensão, logo no primeiro dia: tudo preto no visor. Liguei o treco? Liguei. Tem bateria? Tem. Quer merda aconteceu?! Ligo pro amigo, que estava em outro canto do "pudim" amarelo do Anhembi: "Essa coisa quebrou! Tá tudo preto". E ele, sem se abalar, sem rir e sem mudar o tom de voz: "Ãrrã. Tirou a tampa da lente?". Gargalhada do lado de cá da ligação. "Ah! Veja só: agora funciona!". Nem vermelha fiquei, viu?

O saldo do congresso, para além dos temas discutidos: um total de 2.300 fotos. Duas ou três belíssimas, a grande maioria delas corretas (o que me deixa muito satisfeita, por enquanto), um punhado de imagens apenas medíocres, uma dúzia de bobagens deletadas (algumas por incompatibilidade de gênios entre mim e meu flash), pés, pernas, braços e costas doloridos e a descoberta de uma disposição e bom humor inabaláveis para o trabalho.

Fisicamente, é um massacre, mas infinitamente menos entediante do que sentar a bunda numa cadeirinha da sala de imprensa e escrever o dia inteiro bla-bla-bla para o qual você não dá a menor bola e que quase ninguém lerá.

Texto e foto: Lílian Honda



 Escrito por Lílian Honda às 20h50 [ ] [ envie esta mensagem ]