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Questão de interpretação
Quem me conhece, sabe: não tenho a menor vocação para vítima. Ao contrário, quando me aprontam alguma viro um mix de exu com medéia com cérbero com cão-chupando-manga e com furacão Katrina ou de outro nome feminino qualquer. Mas passa. E rápido.
Nas verdadeiras dores, prefiro o recolhimento e só a fronha de algodão egípcio de 400 fios conhece o resultado. Lembro-me do tempo da terapia, em que eu olhava com o maior desdém praquela indefectível caixa de lenços de papel que o doc mantinha por perto. Sempre achei quase um desaforo ele pressupor que eu fosse chorar na frente de alguém. Nunca o fiz. Nem na morte do meu pai.
Por isso mesmo, foi com surpresa e humor que li algumas (poucas, diga-se de passagem) manifestações sobre o texto "Bacantes", logo abaixo, que o condenavam severamente, ou ao meu porre ou, no mínimo, que ele tivesse virado tema de algo publicável no bológue, qualquer coisa assim. Como não sou besta, não aprovei os comentários, claro. Imagine que vou deixar críticas pessoais a mim aqui no meu espaço! Nem morta... e tou bem longe disso, se meus planos de viver para sempre continuarem dando certo como tem acontecido até agora.
Minha surpresa ficou por conta da questão da interpretação. Quando escrevi a croniquinha, estava leve e contente com a vida. E mais: estava me olhando com uma ironia ligeiramente condescendente, porque costumo ser muito boazinha comigo mesma — e com todo o mérito, segundo meus critérios imparciais de julgamento. Estava achando toda a situação engraçada: o bidê, os pensamentos brincando de esconde-esconde, ter esquecido de comer (o que seria uma benção pra qualquer mulher normal), o contraste do bordeaux com o branco e até a relativa falta de consciência da falta de consciência.
Mas os gatos pingados mais furibundos acharam degradante, barraco ou vitimização. A mais severa crítica me condenou a nudez!!! Minha gloriosa e gostosíssima nudez, na privacidade do meu lar, vejam só.
O que me levou à pergunta: será que um porre eventual feminino dentro de casa é sinal de inevitável decadência, ao passo que uma bebedeira masculina, em público, cheia de vexames e constrangimentos, é normal e divertida? Ou, ainda: será que vulnerabilidades ou pés-na-jaca não têm mais espaço nem alguma graça no mundo dos romances-de-resultados e da euforia perpétua obrigatória?
Algumas teorias literárias dizem que o leitor faz o texto ao ler, tanto quanto o autor. Estou longe de afirmar com isso que meus singelos rabiscos sejam literários, mas o ponto permanece válido: cada um lê o que quer e projeta algo de si nas palavras alheias. É o que posso concluir das reações mais iradas — nem por isso menos hilárias.
Imagem: Marcello Dudovich, L’attesa (1920-25)
Escrito por Lílian Honda às 02h01
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Bacante

Como todo mundo já deve estar orelhudo, dentuço e com rabo de pompom branquinho de saber, a Páscoa é associada ao renascimento. Pois não é que tive uma experiência similar uma semana antes, mas de outro naipe religioso, por assim dizer? Fui acometida de uma epifania mitológica greco-lat(r)ina. Em certa noite, fui para a cama com uma garrafa de bom vinho tinto chileno e a taça de pé azul, de que tanto gosto, para ouvir música. Melodia vai, golinho vem... e, algum tempo depois, lá vou eu para o banheiro, num caminho mais tortuoso e longo do que o habitual, ajoelhar-me nua aos pés do bidê. Já aí tem um “quê” de religioso no ato, reparem. Como não havia comido nada há umas 36 horas, deu-se a olímpica magia de minha transformação num chafariz de Διώνυσος. Podre de erudito, não? Traduzindo: tá escrito ali Dionísio. Ou Baco, para os íntimos. E, cá entre nós, nada mais íntimo do que verter um líqüido bordeaux debruçada sobre a louça branca. O contraste é lindo, não pude deixar de notar, ainda que com a rarefeita atenção de que fui capaz. Pois na forma desta fonte dionisíaca, juntamente com o vinho fui despejando ele, ela (essa engasgou um pouco, devido ao volume), a traição, a frustração, as mágoas e o ódio, tal qual uma pitonisa às avessas, que em vez de revelar um vaticínio devolve ao mundo acontecimentos passados de nenhuma glória, devidamente reprocessados pelos meios e ritual que lhe caem melhor. In vino veritas. E o que for mentira e ardil vai com ele esgoto abaixo. Eu poderia jurar que tudo havia sido obra de duas únicas taças, mas a prova era irrefutável: a garrafa estava vazia. Eu, idem. Novinha em folha (de parreira) daquela madrugada em diante (tá, tá... meio amarrotada no dia seguinte, mas rediviva). Só mesmo um deus risonho e festivo (e bêbado, diriam alguns) para transformar um porre em uma Dionisíaca Pascal Urbana, a mais completa tradução paulistana de um ritual clássico. Texto: Lílian Honda Imagem: George O. W. Apperley, El espíritu de la viña (1917/18) Nota posterior: ai, como tem gente previsível no mundo. Tanto tempo depois, assim que aprovei o primeiro - e gentilíssimo - comentário (assinado apenas pelo e-mail "criteu", a autora veio correndo pedir add no perfil do Orkut. Só faltou dizer "não fui eu, não fui eu". Basta falar no diabo, que ele abana o rabo.
Escrito por Lílian Honda às 14h02
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