Todos os textos publicados neste blog são de autoria de Lilian Honda, exceto quando indicado o contrário (e, nesses casos, serão dados os devidos créditos ao autor).

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Desatino fashion

Quem disse que a gente fica mais sensata com a idade? Confesso: estou cada vez mais suscetível aos surtos verbais, emocionais e comportamentais, sem a menor censura. Sem culpa, eu não diria, afinal, a cultura judaico-cristã está inscrita indelevelmente até no nosso código genético.

Pois uma maldita gripe apossou-se desse corpinho que não era dela e me trancou em casa por quase uma semana. Quase. No sábado, não. E sábado, todo mundo sabe, é um dia de pessoas sensatas ficarem a léguas de distância de shopping center abarrotado de famílias pingando sorvete pelo granito, sempre acompanhadas de incontáveis crianças gritando e atropelando tudo o que encontram pela frente. Mas, depois de dias enfurnada em casa, senti uma necessidade insopitável de comprar um travesseiro de plumas de ganso.

E lá fui eu ao shopping. Entrei e comprei o travesseiro. Primeiro aceno do irracional (se considerarmos absolutamente lúcido o desejo incontrolável por travesseiro de pluma de ganso): pedi para a moça da loja deixar o pacotão repousando no guarda-volumes, só para dar uma espiada nas vitrines mais à vontade.

Batendo as perninhas pelos largos corredores, pensei: “Por que não? Desde que eu faça umas comprinhas seguindo um rigoroso planejamento...”. Só não me dei conta de que talvez seja inviável planejar em cima do quase arrebatamento que é o ato de montar o guarda-roupa da estação. Querem provas? Primeira aquisição: uma sandália de salto altíssimo, sexy, provavelmente as mais caras três tirinhas de couro da história e... cor-de-rosa.

Ok, bateu culpa e imediatamente lancei mão de uma estratégia de emergência. “Nem tudo está perdido. Basta ficar dentro de uma paleta de rosa, gelo, azul e preto, assim combina com o que já tenho no armário e com os sapatos novos”. Genial!

Munida da maior sensatez possível nessas horas (e também de muita auto-indulgência, claro), parti para o segundo tempo. E terceiro. E quarto, porque compra lógica se faz assim: horas e horas provando e escolhendo as peças com metodologia quase científica no quesito shape, caimento, cores e proporção.

Muito orgulhosa do meu impressionante auto-controle, parti para o show doméstico de experimentar e saracotear diante do espelho com tudo o que consegui carregar junto com o tal travesseiro (lembram dele? Eu, não). E lá estavam elas, as saias. De seda pura. Duas. Do mesmo belíssimo modelo, porque quando acho a peça exata compro logo uma de cada cor. No caso, uma gelo e uma azul marinho. Perfeitas. Tudo dentro dos critérios, não fosse um “porém” de detonar com a suposta objetividade do empreendimento: longas! Que raios farei com duas saias longas, iguais, se posso contar nos dedos as ocasiões em que precisei vestir algo assim?

Agora me digam se não é pura malandragem do inconsciente fashion.

 

Imagem: Sigmar Polke, “Measuring Clothes” (1994)



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