Todos os textos publicados neste blog são de autoria de Lilian Honda, exceto quando indicado o contrário (e, nesses casos, serão dados os devidos créditos ao autor).

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Em busca da simplicidade "zen" pênis
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Underwood

Tenho em casa uma Underwood antiga, preta, daquelas com teclas redondinhas e mecanismo à mostra, comprada em uma loja de velharias (não ouso chamar de antiquário aquele lugar). Meus primeiros textos publicitários e jornalísticos foram escritos nela e exigiram uma certa força física, além do inevitável empenho intelectual. Tá, serei franca: usar a Underwood era praticamente uma sessão de musculação. Há muitos anos, desde que comprei meu primeiro computador, em 1987, a velha máquina anda de lá pra cá, dentro de armários, esperando hora e lugar apropriados para ser exposta como peça decorativa.

Mas a Underwood não foi a minha primeira máquina de escrever. Na infância, ganhei do papai um exemplar "portátil". As aspas merecem uma explicação: era uma máquina tão grande e tão pesada que o adjetivo deve se aplicar exclusivamente à imensa mala em que era acondicionada. Provavelmente, o papai reparou que eu invadia seu escritório, no centro da cidade, para datilografar as peças de teatro que "cometia" na ocasião e, em nome do sossego, deu-me a máquina, nova, reluzente e linda.

De posse da minha poderosa máquina, minha "carreira" ganhou ímpeto e conforto. Eu instalava uma mesinha no meio do quintal, levando pilhas de papel, limonada, guarda-sol, lápis, borracha, grampeador, diário, livros... um verdadeiro estúdio tropical, com churrasqueira, redes, plantas, gato e tartaruga ao redor. Além de dramaturga incipiente, mas não inédita, uma vez que minhas peças viravam sucesso de público materno na escola (geralmente, eu dirigia e tinha algum papel coadjuvante, mas determinante, escrito especialmente pra mim), virei jornalista. Redigia um jornalzinho com crônicas e notícias da turma. Como era prático! Saía meu boletim devidamente diagramado, com cópias em papel carbono e ilustrado à mão com canetinha hidrográfica.

Essa minha máquina não muito portátil serviu algumas vezes de banquinho no ônibus lotado que ia para a escola. À falta de vaga na turma de datilografia, resoluta e atrevidinha, propus ao professor que levar o meu equipamento. Na verdade, olhando as duas na rua, menininha e mala, quase do mesmo tamanho, era difícil saber quem levava quem. Fui aceita, para o meu alívio, porque me livrei das aulas de culinária que havia freqüentado no ano anterior, devidamente paramentada com um aventalzinho de brim azul, rodeado de babado e com enorme bolso em forma de coração aplicado no meio. Design by eu mesma, confecção materna. Muito fashion e mais que suficiente para meus poucos talentos domésticos.

Nas aulas de datilografia, curso eufemisticamente chamado pelas freiras de "técnicas comerciais", embora não comêssemos tão bem, ouvíamos valsas e chorinhos, interpretadas por uma colega ao piano.

Uma foto da Underwood em sépia, trabalhada em alto contraste, ilustrou o primeiro folheto da minha empresa, vendendo jornalismo empresarial.

Têm razão, as crianças da crônica do Mário Prata. Aquelas máquinas eram muito práticas. A gente escrevia e tudo ia surgindo, palavra por palavra, diante de nossos olhos, sem complicações com cartuchos, instalação, software, compatibilidade, configuração. Era mágico.

 

Imagem: Jan Vermeer, Mistress and Maid (c. 1667-68)



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