Todos os textos publicados neste blog são de autoria de Lilian Honda, exceto quando indicado o contrário (e, nesses casos, serão dados os devidos créditos ao autor).

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Barraco
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Em busca da simplicidade "zen" pênis
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mal traçadas
 

Vaca fria

Voltando à vaca fria — fria, gripada e encolhida debaixo do edredon —, por que raios todo mundo acha o guarda-roupa de inverno mais elegante?! Dê uma olhada minimamente crítica e não colonizada da janela pra fora, fazendo o favor: o povo todo está desfilando pela rua com a graça, a sutileza e o porte do bonequinho da Michelin!

Não adianta a gente querer ficar igualzinho a europeu circulando pelas ruas de Paris de sobretudo preto, obra-prima da alfaiataria. Esqueçam. Não estamos “aparelhados” pra isso. No frio, os trópicos viram o triste reinado da roupa-cebola: várias camadas de panos de todos os tipos, cores e texturas, que vão sendo arrancadas em sincronia com a subida do termômetro, pra depois seguirem caminho inverso, enquanto o sol vai baixando.

Na passarela do inverno tropical, dá-lhe gorro arrematado com pompom e acoplado a cachecol, aquele que a mãe tricotou quando neguinho tinha 12 anos. Listrado, claro, como o meião por cima da calça das que se acham jovens e modernas. Há quem tire do baú a malha de lhama hippie-andina, aquela mesma que freqüentou muita assembléia da União Nacional dos Estudantes e que, se bobear, cheira tão bem quando a lhama em carne e osso e pêlo. Já vi até poncho por aí, no melhor estilo releitura das tradições gaúchas. Ah, os xales ressurgiram (como eu ia esquecendo disso?), dando um astral de tia-Clorinda-pronta-pra-missa-dominical-na-capela-da-aldeia a qualquer mulher, ainda que ela tenha investido uma nota preta num exemplar de legítima pashmina.

Há quem tente dar uma pincelada clássica no modelito jogando por cima das camadas de lã acrílica cheia de bolinhas um blazer de meia-estação, que não só não esquenta como não ajuda em nada no layout recheado. Há quem pretenda tomar emprestada alguma dignidade selvagem usando peles. Em vão. Ou, então, há quem radicalize e parta direto para a embalagem de luxo dos horrores: jaqueta acolchoada de nylon ou qualquer coisa sintética dessas. Eu fico sempre com a impressão de que, a qualquer momento, o cara vai dizer: “Houston, temos um problema”. E temos. Derrapada fashion.

Não adianta argumentar que as roupas estruturadas de inverno contribuem com o visual de quem está fora de forma. Qualquer semi-alfabetizado em moda sabe que gordinhas ficam bem com roupas fluídas, caso contrário acabam parecendo o tal bonequinho da Michelin (chama-se Bib, sabiam? Depois reclamam que não tem informação útil nestas mal traçadas linhas), só que em versão engessada em traje militar, com ombreiras.

É o seguinte: bonito é gente pelada de qualquer formato. Elegante é jogar por cima um paninho esvoaçante e transparente, com alcinhas bem fininhas. Ou alguém já viu as Três Graças retratadas com trench coat de gabardine impermeabilizada e botas, ahn?

Sobre luvas, nem vou falar nada. O Branco Leone fez o tratado definitivo sobre o tema, em "A vida de luvas (as trêmulas anotações de um friorento)".

Pra encerrar, Parada Gay. Só tenho um comentário: sair por aí com fio dental enfiado no rabo depilado, naquele frio, é coisa pra macho. E cheio de estilo. E viva a diferença!



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