Todos os textos publicados neste blog são de autoria de Lilian Honda, exceto quando indicado o contrário (e, nesses casos, serão dados os devidos créditos ao autor).

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mal traçadas
 

Marcianos invasores de corações

Alguém aí já assistiu àquele filme dos mortos-vivos que se alimentavam de cérebros e corriam atrás dos ainda-vivos gritando “miolo, miolo”? “Corriam” é modo de dizer; alguns deles, com os corpos pela metade, arrastavam-se usando os braços. No melhor estilo "filme de vampiro", até as vítimas que levavam meras mordidas estavam com as horas contadas: começavam a sentir “sintomas” (!?) da morte, se é que se pode dizer isso (se não pode, pelo menos é engraçado), como queda de temperatura e rigidez cadavérica, e em breve sairiam por aí, exigindo massa cinzenta como prato principal - e único. Trash total, claro. Por isso mesmo, divertido. Mas isso aqui não é crítica de cinema, e sim de uma singela comparação: quando penso no desespero das pessoas em busca do amor, lembro-me imediatamente dos zumbis gritando “miolo, miolo...”.

 

Já sei: lá vêm pedradas. Que venham. Vou repetir uma coisa que escrevi lá no comecinho destas mal traçadas: amor é uma espécie de endemia às avessas em nossa sociedade, que dá ao portador uma espécie de cartão gold plus da felicidade suprema. E mais: quando alguém ousa falar que não está amando nem se encontra à procura de amor, todo mundo olha torto, pensando: “Essa pessoa não é normal”. Bem, pra começo de conversa, a julgar pelo index da Organização Mundial da Saúde, somos todos malucos. Temos um verdadeiro catálogo de designações de ar científico para dar nomes a todos os bois da mente. Acho mesmo que a nossa crença fundamentalista na ciência é tanta que, catalogando os males, praticamente nos desobrigamos de sofrê-los. Com mais de duzentas doenças mentais na listinha, fica impossível não classificar qualquer mania, medo, sonho esquisito, desejo descabelado, hábito besta, tristeza vaga ou idiossincrasia inofensiva como maluquice. Mas isso já se dizia antes, sem tanto requinte técnico. Ou então chamávamos de heresia, possessão demoníaca ou coisa de comunista, tanto faz. Fico aqui matutando que os pecados pelo menos eram em menor número. Mais fácil de decorar.

 

Voltando ao amor romântico: há vida além dele. Vida bem bacaninha, diga-se de passagem. A gente emagrece. Refaz o guarda-roupa. Lê mais e vai mais vezes ao cinema. Melhor que isso: assiste ao filme! Viver sem amor é um estado sublime de gravidez de afeto. Em outras palavras: uma época de treinamento intensivo para o mercado da galinhagem, no qual você fará sua rentrée em grande estilo, quando resolver que é hora de caçar o próximo objeto da paixão. Metáfora cafoninha, que os apaixonados de plantão entenderão facilmente (é o idioma deles): vida sem amor é como um lago de serenidade, respingadinho de expectativas cintilantes...

 

Acima de tudo, viver sem paixonite é fazer com que sua felicidade dependa única e exclusivamente da pessoa mais confiável do mundo: você mesmo. É tão legal, esse lance de não estar amando, que a gente pode se dar ao luxo de escolher qualquer caminho por conta e risco, até mesmo sair andando distraído à beira do abismo amoroso. E cair, eventualmente.

 

Aliás, lembrei agora de um verso em que Pessoa diz que “amar é estar distraído”. Acho que é o contrário. Do jeito que se vive o amor em nossos dias, é mais ou menos como nesses filmes de ficção científica dos anos 50, em que as pessoas eram dominadas por marcianos invasores de corpos e saíam à cata de quem ainda não estivesse infectado. E aos que não se “enquadram”, dá-lhe terapia, conselho, macumba, Prozac, livro de auto-ajuda, oração pra Santo Antônio, revista Cosmopolitan, tudo para “dar certo” nas questões do coração, que nasceram justamente com hora marcada para "dar errado" logo ali na esquina. Vem com data de validade, gente! É assim que funciona e, provavelmente, aí está a graça da coisa toda.

Imagem: "Innocence", de Bouguereau



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