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Desejo
Na livraria, em pé, equilibrando sacolas, bolsas e livros escolhidos ao acaso da leitura de um parágrafo, uma frase, duas ou três palavras de boa combinação. Olhando obsessivamente para os livros do alto, aqueles que não alcanço, e que de certeza serão os melhores, embora eu nem me dê ao trabalho de ler as lombadas. Antecipo o sufocamento, a falta de fôlego que algumas palavras me causam. Não leio os títulos nem autores, mas são aqueles que me escapam os que gostaria de ter. As palavras que me faltam são as que mais quero. Em pé, lágrimas que não escapam por pouco, hera apertando a garganta por dentro. Estão ali as palavras que se ausentam. No alto. A história que nunca lerei é a que mais me comove. Não me passa pela cabeça recorrer aos atendentes desatentos que conversam no balcão ali ao lado. Não saberia o que pedir. Nunca soube o que pedir, provavelmente porque não há palavras para o que quero. O que quis, quis assim, o do alto, o que só posso adivinhar ao longe. Se soubesse o nome, a palavra, então não seria aquilo. As lombadas enfileiram-se, cores, estampas, letras de diferentes famílias, em grupos de três, cinco, dois. A mais fina, a capa preta solitária, com letras que mal enxergo daqui, é aquela que me leva a desejar o livro. O cheiro do livro. Na página que seria aberta ao acaso, estaria lá o trecho que desataria as lágrimas, tão poucas palavras para dizer tanto. Ou nada. Comoção que salta de algumas letras enfileiradas. Não história de amor, não pai que encontra filha perdida. Nenhum fio condutor ou salto para a ficção. Está no alto, onde não alcanço. Quero o salto para o indizível. Quero que me adivinhem.
Texto: Lílian Honda Imagem: Utagawa Kuniyoshi, "Woman Reading", séc. XIX
Escrito por Lílian Honda às 23h30
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Até que a morte os separe
Existem amores que se estendem por toda uma vida. Arrisco dizer: "até que a morte os separe" vai além de uma possibilidade. Ou da ficção.
Talvez a dificuldade de reconhecer o grande amor esteja em nosso olhar adestrado pelas acanhadas fronteiras do romântico. O "para sempre" não cabe aí; não é compactado e estético, não é arquitetado para causar efeito, nem é um recorte preciso de autor para as páginas de um livro ― ainda que tenha sete volumes, como À la Recherche du Temps Perdu; ou mesmo que a muitos qualquer romance pareça uma leitura interminável.
Obra aberta sem a limitação material de nenhum suporte ou roteiro, o amor da vida inteira se faz de meios-tons, delicadezas, sutilezas e detalhes, como um infinito quebra-cabeça composto de minúcias do cotidiano. Não, não é cansativo. Não enjoa e não se desgasta, embora tenha momentos de entediante inverno. Mas é justamente aí, nos invernos, que o grande amor torna-se a xícara de chocolate quente e a manta de lã.
Eu vivo um grande amor assim e nunca escrevi sobre ele. Um quarto de século de convivência ininterrupta, dos quais vinte anos foram vividos sob o mesmo teto. Nunca houve um rompimento, embora eu tenha decidido morar numa casa só minha há algum tempo. Aconteceram, claro, incontáveis discussões, entre tolas e proveitosas, arranhões mútuos na vaidade, narizes torcidos, discordâncias variadas e desencontros de momentum. Somos sócios nos negócios e na existência. Somos, um para o outro, o ponto de certeza mutante suspenso sobre a vida que corre. E eu nunca escrevi para ele.
Um grande amor é, sobretudo, generoso. Cabem outras pessoas nessa massa cálida de afeto. Tive outros homens, até me casei certa vez; também ele casou-se novamente. Brincando à moda do Quintana, eu o amo tanto que até pela mulher dele sinto um certo quebranto. É sério: somos amigas, verdadeiramente. Já enxugamos as lágrimas uma da outra, fazemos piada uns dos outros, rimos muito juntos e ― pobre querido! ― freqüentemente eu e ela nos aliamos contra ele nas desavenças. E quem quer que entre nessa história terá seu confortável e exclusivo espaço, porque um grande amor não é táxi, que baixa a bandeira quando tem um passageiro.
Não vou aqui falar sobre as influências que tive sobre ele nesses anos todos. Foram muitas e eu saberia identificá-las perfeitamente e com orgulho. Quero fazer apenas uma prosaica elegia desprovida da métrica, das rimas e da elegância. Trivial como um amor da vida inteira tem de ser.
É ele quem me desembaraça dos emaranhados de todo tipo. É ele quem sempre tem algo certo, reto e profundo para me dizer, sem machucar ou ofender. É ele quem aceita meus repentes, minhas escolhas equivocadas, meus períodos taciturnos e minhas insatisfações crônicas. Reclamando e dando muitos palpites, claro, porque não é santo, mas está sempre lá para acolher sem censuras e proteger, se for preciso.
Empenhei meu lirismo a pessoas e amores transitórios, mas nunca escrevi para este homem fundamental e perene como inscrições rupestres. No entanto, foi ele quem afirmou e reafirmou esta minha vocação (à falta de palavra melhor), antes mesmo que eu pensasse nas letras como uma possibilidade. Assim como sempre valorizou cada uma das minhas virtudes, sem que eu ainda as tivesse percebido.
Ou, quem sabe, eu as fui construindo ― às virtudes ― só por saber que ele as tinha inventado. Talvez esteja aí a elegia concreta que pude oferecer.
Texto: Lílian Honda Imagem: Klim, Embrance

Escrito por Lílian Honda às 14h43
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Alguma coisa acontece no meu coração...
A foto que ilustra esta página é de minha autoria e saiu no site do X Congresso Internacional da Cidades Educadoras, do qual fui um dos fotógrafos oficiais (éramos em três na minha equipe. Aliás, dos cinco fotógrafos que flanaram por lá mais assiduamente, três eram mulheres).
Fez parte da programação do congresso a visita a diversas experiências educadoras paulistanas não relacionadas ao ensino formal, inclusive a inevitável ida à favela, que gringo ama — não por acaso, o passeio mais concorrido. O sócio foi despachado para a favela de Heliópolis, a associada ficou com a turma que visitou um daqueles CEU-sei-lá-que-bairro-da-perifa e eu escolhi cobrir as "Trilhas do Centro", um passeio guiado pela professora de sociologia da USP, Fraya Frehse, a loura com pose de messias ali da foto. Da escola de samba, porém, não escapei... ossos do ofício.
Pois a Fraya costuma levar os seus alunos para uma interessantíssima redescoberta da cidade, a partir da comparação com os mesmos ângulos fotografados por Militão Azevedo, o célebre autor das mais antigas imagens de sampa. Em cada local, somos convidados a "ver" o que não mais existe e a entender o processo de destruição/reconstrução permamente desse caos a que chamamos de cidade.
O passeio ganhou mais de um significado, no meu caso. O olhar generoso e crítico que Fraya nos convida a lançar sobre as ruas do centro passou ainda pelo filtro da lente, na minha primeira reportagem alone. Largada por conta própria no meio dos gringos, tive que me virar para não perder os lances, para não me perder do grupo, para responder às perguntas dos transeuntes e moradores de rua que juntaram-se a nós e ainda prestar atenção à possibilidade não muito remota de ter meu equipamento roubado. Dirigiram-se a mim em inglês; acabei deduzindo que todo mundo acha que japa com máquina fotográfica na mão é turista estrangeiro.
Para minha surpresa, estive absolutamente zen não só ali, como durante todo o lufa-lufa do congresso, desde o primeiro clique até o final das cerca de 17 horas por dia de vigília. Meu único momento de apreensão, logo no primeiro dia: tudo preto no visor. Liguei o treco? Liguei. Tem bateria? Tem. Quer merda aconteceu?! Ligo pro sócio, que estava em outro canto do "pudim" amarelo do Anhembi: "Essa coisa quebrou! Tá tudo preto". E ele, sem se abalar, sem rir e sem mudar o tom de voz: "Ãrrã. Tirou a tampa da lente?". Gargalhada do lado de cá da ligação. "Ah! Veja só: agora funciona!". Nem vermelha fiquei, viu?
O saldo da estréia: um total de 2.300 fotos. Das minhas, duas ou três belíssimas, a grande maioria delas corretas (o que me deixa muito satisfeita, por enquanto), um punhado de imagens apenas medíocres, uma dúzia de bobagens deletadas (algumas por incompatibilidade de gênios entre mim e meu flash), pés, pernas, braços e costas doloridos e a descoberta de uma disposição e bom humor inabaláveis para o trabalho, coisa que não é comum em mim.
Comparando com a redação, meu trabalho anterior, tou achando que o saldo é favorável à fotografia. Fisicamente, é um massacre, mas infinitamente menos entediante do que sentar a bunda numa cadeirinha da sala de imprensa e escrever o dia inteiro bla-bla-bla para o qual você não dá a menor bola e que ninguém lerá. Jornalismo corporativo? Acho que nunca mais. "Nunca mais", por enquanto, claro.
Ah, sim. Lições aprendidas: meninas fotógrafas têm regalias. Usei mais e melhor a sala de imprensa, especialmente os sofás, as comidinhas e bebidinhas, do que os colegas jornalistas. Meu sócio foi expulso quando subiu ao palco atrás "daquela" foto. Eu, não. Os seguranças implicam com os meninos fotógrafos. Já eu entrei e saí de onde quis, só na base do sorrisinho cordial. A segunda lição: nunca avise quando você resolver se esconder um pouco pra descansar. No momento em que o fiz, os coleguinhas imediatamente jogaram ao redor do meu pescoço mochilas, bolsas, sacolas... Virei um cabideiro com perninhas (doloridas). Agora, só à francesa.
Texto e foto: Lílian Honda
Escrito por Lílian Honda às 20h50
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Imagem é tudo...
Delicio-me com as ironias da vida.
Depois de anos e anos e anos ganhando a vida às custas do idioma pátrio, resolvi saber que língua é essa e, no final das contas, acabei mesmo me interessando pelo latim, que, como todos sabem, tem um mercado promissor pela frente. E mais: achando que sairia especialista nas minúcias da norma padrão da última flor do Lácio, descobri que o buraco é mais embaixo e infinitamente mais interessante, complexo e dinâmico do que um punhado de regras a decorar.
Agora, finalmente, após tanto tempo de dedicação às letrinhas e lá vou eu virar... fotógrafa! Poisé. Abri um estúdio recentemente com um sócio experiente no ramo e, de início, pensei em me dedicar exclusivamente à parte comercial, para a qual, modéstia às favas, sempre tive algum talento. Vai daí que o trabalho avolumou-se e as coisas tomaram um rumo inesperado: passei a fazer tratamento de imagem e, por fim, me interessei pela captura da dita cuja que - dizem - supera o valor de mil palavras. A conferir.
Minha estréia profissional será amanhã, no X Fórum Mundial Cidades Educadoras, um grande evento que está sendo promovido pela primeira vez no Brasil e do qual seremos fotógrafos oficiais. Estou agitada, insone e feliz, sobretudo por ter a segurança de estar trabalhando ao lado de dois profissionais tarimbados, simpáticos e gentis.
A programação dos três dias de fórum é ótima, para completar os ventos favoráveis à minha nova atividade. Emendaremos com a cobertura de parte da Virada Cultural, de modo que não garanto sobreviver para contar as eventuais besteiras que irei perpetrar. Ou não, se tudo for como nos "ensaios" e eu puder meter uns "cacos" no script. Afinal, a vida costuma ser puro improviso.

Escrito por Lílian Honda às 23h54
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Um pé na cova, outro na casca de banana
No final do século XVI, Francis Bacon dizia que a ciência deveria fazer sua entrada triunfal na passarela da vida cotidiana. Entrou apoteoticamente, como todos sabemos, mas já está atravessando o enredo.
E sabe quando a gente percebe que o cientificismo, o racionalismo, o capitalismo e outros ismos correlatos estão com um pé na cova e outro na casca de banana? Quando vai descascar uma bananinha (literalmente falando) e dá de cara com um selo colado na fruta: "Banana Biodinâmica".
De tanto rir, quase engasguei com o pedaço que já estava na boca. Caprichosamente, descolei o tal selinho (impresso em cores, claro) e guardei entre as páginas de "São Bernardo", do Graciliano Ramos, que reli ontem, inteirinho, com inenarrável prazer e também com um sorriso irônico estampado nas fuças.
E que relação tem o livro do Graciliano com a banana "de última geração"? Ah, se soubesse da novidade agrícola, Paulo Honório, o protagonista-narrador e bem acabado monumento ao homem instrumental, seria o primeiro a plantar um imenso bananal biodinâmico desses (seja lá o que isso significa).
"São Bernardo" e a "Banana Biodinâmica Inc." cruzam suas existências casualmente na mesa da minha cozinha e sobre os escombros da modernidade. Em campos opostos: o livro é a crítica; o marketing da fruta é a representação mais concreta (e comestível) da ausência de senso crítico.
[Em tempo. Arrisco um palpite: "São Bernardo" é um livro de tessitura mais refinada e infinitamente mais sutil que o consagradíssimo "Vidas Secas". Os fãs da Baleia (a cachorrinha, tá? Não custa esclarecer) que me perdoem a ousadia.]
Texto: Lílian Honda Imagem: Não faço a mínima idéia de quem seja o autor... mas ficou chiquita-bacaninha, não?
Escrito por Lílian Honda às 00h40
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Questão de interpretação
Quem me conhece, sabe: não tenho a menor vocação para vítima. Ao contrário, quando me aprontam alguma viro um mix de exu com medéia com cérbero com cão-chupando-manga e com furacão Katrina ou de outro nome feminino qualquer. Mas passa. E rápido.
Nas verdadeiras dores, prefiro o recolhimento e só a fronha de algodão egípcio de 400 fios conhece o resultado. Lembro-me do tempo da terapia, em que eu olhava com o maior desdém praquela indefectível caixa de lenços de papel que o doc mantinha por perto. Sempre achei quase um desaforo ele pressupor que eu fosse chorar na frente de alguém. Nunca o fiz. Nem na morte do meu pai.
Por isso mesmo, foi com surpresa e humor que li algumas (poucas, diga-se de passagem) manifestações sobre o texto "Bacantes", logo abaixo, que o condenavam severamente, ou ao meu porre ou, no mínimo, que ele tivesse virado tema de algo publicável no bológue, qualquer coisa assim. Como não sou besta, não aprovei os comentários, claro. Imagine que vou deixar críticas pessoais a mim aqui no meu espaço! Nem morta... e tou bem longe disso, se meus planos de viver para sempre continuarem dando certo como tem acontecido até agora.
Minha surpresa ficou por conta da questão da interpretação. Quando escrevi a croniquinha, estava leve e contente com a vida. E mais: estava me olhando com uma ironia ligeiramente condescendente, porque costumo ser muito boazinha comigo mesma — e com todo o mérito, segundo meus critérios imparciais de julgamento. Estava achando toda a situação engraçada: o bidê, os pensamentos brincando de esconde-esconde, ter esquecido de comer (o que seria uma benção pra qualquer mulher normal), o contraste do bordeaux com o branco e até a relativa falta de consciência da falta de consciência.
Mas os gatos pingados mais furibundos acharam degradante, barraco ou vitimização. A mais severa crítica me condenou a nudez!!! Minha gloriosa e gostosíssima nudez, na privacidade do meu lar, vejam só.
O que me levou à pergunta: será que um porre eventual feminino dentro de casa é sinal de inevitável decadência, ao passo que uma bebedeira masculina, em público, cheia de vexames e constrangimentos, é normal e divertida? Ou, ainda: será que vulnerabilidades ou pés-na-jaca não têm mais espaço nem alguma graça no mundo dos romances-de-resultados e da euforia perpétua obrigatória?
Algumas teorias literárias dizem que o leitor faz o texto ao ler, tanto quanto o autor. Estou longe de afirmar com isso que meus singelos rabiscos sejam literários, mas o ponto permanece válido: cada um lê o que quer e projeta algo de si nas palavras alheias. É o que posso concluir das reações mais iradas — nem por isso menos hilárias.
Imagem: Marcello Dudovich, L’attesa (1920-25)
Escrito por Lílian Honda às 02h01
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Bacante

Como todo mundo já deve estar orelhudo, dentuço e com rabo de pompom branquinho de saber, a Páscoa é associada ao renascimento. Pois não é que tive uma experiência similar uma semana antes, mas de outro naipe religioso, por assim dizer?
Fui acometida de uma epifania mitológica greco-lat(r)ina. Em certa noite, fui para a cama com uma garrafa de bom vinho tinto chileno e a taça de pé azul, de que tanto gosto, para ouvir música. Melodia vai, golinho vem... e, algum tempo depois, lá vou eu para o banheiro, num caminho mais tortuoso e longo do que o habitual, ajoelhar-me nua aos pés do bidê. Já aí tem um “quê” de religioso no ato, reparem.
Como não havia comido nada há umas 36 horas, deu-se a olímpica magia de minha transformação num chafariz de Διώνυσος. Podre de erudito, não? Traduzindo: tá escrito ali Dionísio. Ou Baco, para os íntimos. E, cá entre nós, nada mais íntimo do que verter um líqüido bordeaux debruçada sobre a louça branca. O contraste é lindo, não pude deixar de notar, ainda que com a rarefeita atenção de que fui capaz.
Pois na forma desta fonte dionisíaca, juntamente com o vinho fui despejando ele, ela (essa engasgou um pouco, devido ao volume), a traição, a frustração, as mágoas e o ódio, tal qual uma pitonisa às avessas, que em vez de revelar um vaticínio devolve ao mundo acontecimentos passados de nenhuma glória, devidamente reprocessados pelos meios e ritual que lhe caem melhor.
In vino veritas. E o que for mentira e ardil vai com ele esgoto abaixo.
Eu poderia jurar que tudo havia sido obra de duas únicas taças, mas a prova era irrefutável: a garrafa estava vazia. Eu, idem. Novinha em folha (de parreira) daquela madrugada em diante (tá, tá... meio amarrotada no dia seguinte, mas rediviva).
Só mesmo um deus risonho e festivo (e bêbado, diriam alguns) para transformar um porre em uma Dionisíaca Pascal Urbana, a mais completa tradução paulistana de um ritual clássico.
Texto: Lílian Honda Imagem: George O. W. Apperley, El espíritu de la viña (1917/18)
Escrito por Lílian Honda às 14h02
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Post jurássico, o revival

Vejam só que coisa: no mês passado, os dinossauros e sua suspeita relação com as galinhas andou de novo circulando pela mídia. Até Ruy Castro comentou na Folha a tal pesquisa da revista "Science", que relatou que uma ligação entre o colágeno extraído do fêmur de um tiranossauro que viveu há 68 milhões de anos nos EUA e o de uma dessas nossas conhecidas matérias-primas de canja. Dizem eles que isso indicaria o que o (outrora) temível T. rex, nas palavras de Castro, "está muito mais para uma galinha do que para os outros répteis de seu tempo". Ruy Castro diz em sua crônica que sempre sempre achou o dino parecido com a ave. Pois eu discordo. Aliás, já discordava antes, como mostra esse texto aqui, publicado neste mesmo espaço, há exatos três anos:
Galinheiro Jurássico
Não, não estou falando de moços da terceira idade, de modo geral, nem de políticos do PFL, em particular. Muito menos de um show reunindo certos ícones da MPB ou do rock. Refiro-me aos lagartões que andaram pelo planeta e têm como star da equipe o Tiranossauro Rex. Por muitos anos, guardei com carinho um desenho do Horácio, aquele T-Rex que só come alface, que o Maurício de Souza fez para mim, depois de uma palestra sobre história em quadrinhos no Museu da Casa Brasileira. Na infância, um dos meus tesouros era um livrão enorme, de capa dura, com um desenho de dinossauro por página.
E já que é dia de confissões, lá vai: adoro filmes trash com dinossauros, daqueles antigos, em que a animação dos bichos é mais fake que seio de top model (nenhuma mulher com 1m80 e menos de 50 kg consegue ter aquele volume todo). O auge da evolução do gênero foi o primeiro "Parque dos Dinossauros", uma delícia de epifania pré-histórica. E atire a primeira pedra quem não teve medo naquela cena em que a água trepidou no copo, enquanto ouvia-se o ruído surdo dos passos do T-Rex que se aproximava do carro.
Também não perco um programa sobre dinossauros no Discovery, mas estou começando a me aborrecer. A paleontologia tá com cara de filme de ficção científica dos anos 50 que engatou a marcha-ré no tempo! Os documentários mais recentes estão cada vez mais parecidos com episódios do seriado "Família Dinossauro", aquele do Dino da Silva Sauro e do impagável Baby, lembram-se?
Em nome da ciência, andam até apresentando o ex-lagarto terrível, o T-Rex, como uma espécie de urubu gorducho, lento e sedentário. De uns tempos pra cá, decidiram que todos os dinossauros são galinhas ou, na melhor das hipóteses, um daqueles jurássicos destaques de carro alegórico de escola de samba, cheio de penas. Admito que morro de medo de galinhas, muito sinistras pro meu gosto, mas agora estou achando que não sou a única. Definitivamente, há cientista por aí em quem penosas despertam terrores ancestrais.
Agora, cá entre nós, falta de respeito tem limite! Fazer um velociraptor igualzinho ao Garibaldo da Vila Sésamo é uma afronta da paleontologia aos monstros da nossa imaginação.
Ilustração: Sandro Baraldi / 2004
Escrito por Lílian Honda às 00h13
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Sinais de fumaça

Debret, "Inscrições"
O Orkut é uma delícia de exercício literário. Fuçando o recadário alheio com um belo par de antenas afiadas, escoltada por uns conceitos básicos aristotélicos de verossimilhança e munida de um tico de habilidade para análise do discurso e suas estratégias, com quase nada de imaginação você monta historinhas razoavelmente lapidadas sobre a vida alheia.
Parentese: sim, eu xereto. Por curiosidade pura e simples. Não sempre, claro, e nem a todos, por conta das minhas idiossincrasias xeretícias. E não sou vista pelo Bina do Orkut nem como perfil fake, porque tenho meus truques, que são até muito rudimentares. Qual seria a graça daquele perfil mais falso que bolsa Chanel de desafeta ficar recebendo os patéticos recadinhos do tipo “você veio me espiar”. Nãããooo! Euuuuuu?!. Fecha parêntese.
Aliás, liçãozinha pra lá de básica: quando você lambe a ponta do lápis e rabisca seu bilhete caprichado no escrapedário de algum amigo, virtual e automaticamente montou seu palanque para mais gente – e não foi por acaso. Quem quer tête-à-tête não usa palco, assim como quem quer discrição não sai por aí em look total dourado ou com estampa psicodélica (ô, revival delicioso!). Mas tanto dourado quanto estampas psicodélicas caem muitíssimo bem na circunstância adequada. Se você sabe disso, também sabe porque está escrevendo um scrap>.
Escrito por Lílian Honda às 13h11
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Inquietação da semana
"Seguindo os passos do casal de astros Angelina Jolie e Brad Pitt, a cantora pop norte-americana Britney Spears quer ter seu próximo bebê na Namíbia."
O que rola na Namíbia? Nossa Senhora do Bom Parto fixou residência por lá?!
Escrito por Lílian Honda às 17h16
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Se non è vero...
 Tiepolo, The Procession of the Trojan Horse in Troy (c. 1760)Sabe, moçada, ando achando Aristóteles, ou ao menos seu côté lingüista, muito legalzim. Lendo e relendo trechos da Poética, meu primeiro impulso foi mandar um resuminho simplificado, com figurinhas e diagramas (não custa facilitar, nesses tempos de domínio do instrumental) para os roteiristas de Hollywood. E dizer: “unidade de ação”, moçada, leiam meus lábios, é mais velha do que latim!
O segundo impulso foi pensar na metafísica do velho Ari (ou Totó, como diz uma amiga minha, respeitosa e carinhosamente). Brincando aqui com pensamentos, encarapitada no alto da minha indomável e irrefreável ignorância ― sim, sim, a ignorância é atrevida, não tem jeito ―, fiquei ruminando a idéia de que Aristóteles escreveu a metafísica seguindo rigorosamente as lições que estão na Poética. Uma bela e irretocável obra, com verossimilhança, coerência e unidade de ação, ao gosto aristotélico ― e, conseqüentemente, palatável até hoje. Uma pérola que até Homero certamente teria aprovado com gosto, seja lá quantos Homeros existiram. Ou não existiram (e, neste caso, só me resta dizer: se non è vero, è molto ben trovato).
Aos que torcerem o nariz, tanto por conta das velas acesas no altar na metafísica, quanto pelo fato de o velho Ari estar recomendando um “modo de fazer” específico para a ficção, eu diria: mas o que não é ficção? Ou fé? Meninada, até a racionalidade e a ciência o são. Ou ossinho. Não resisti ao trocadalho, sorry.
Notinha envergonhada: Tou abismada. Recebi dois comentários aqui neste empoeirado espaço por esses dias. É espantoso que alguém ainda se dê ao trabalho de aparecer por essas bandas. Fico feliz e agradecida.
Escrito por Lílian Honda às 15h14
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Mãe, tou na USP. Sim, de novo...

Gente, voltei pra USP. Tou fazendo Letras. Quero ser uma moça letrada e diplomada quando crescer, iniciada nos mais esconsos segredos desse negócio de botar letras de carreirinha. Entrar lá foi moleza (sorry, periferia, nem estudei. Sempre fui uma CFD enrustida): a parte chata foi a fila da inscrição pra Fuvest – e não porque era domingo, praticamente madrugada (8h da manhã, me perdoem os calvinistas e assemelhados, é madrugada pra mim), chovia e a anta aqui resolveu sair sem ter comido nem aquele iogurtinho desnatado com granola porque achou que seria tudo muito rapidinho. O duro mesmo foi descobrir que as mães dos moleques lá da fila eram todas mais novas do que eu! Aliás, por falar em mãe, que raios esses moleques vão fazer escoltados por mãe na fila de incrição pro vestibular?! Pior: na matrícula (leia os meus lábios: matrícula na universidade!), a coisa se repetiu: marmanjos sendo pintados pelos veteranos desocupados, naquele rito de passagem tribal que atende pelo nome de “trote”, devidamente acompanhados por mães sorridentes e orgulhosas!!! Onde estamos? Esse molecada perdeu a compostura? Será que não sabem pegar ônibus pra USP? Será que as mãetoristas estarão esperandinho diariamente, ao final das aulas? Na minha época de estudante (a de antes, não a de agora), a gente não deixava mãe chegar a menos de 2 km do colégio pra não passar vergonha. Na faculdade, então, presença de mãe só era permitida na cerimônia de formatura, que sempre foi data especialmente reservada para vexames maternos. Agora bateu aqui na telha a cena: uma mãe ensandecida pelos corredores da autarquia, interpelando aos gritos um professor doutor qualquer de sânscrito pra reclamar das críticas à tese do pimpolho-mestrando. Ora, tomem vergonha. Pensando bem, até que não seria mal ter uma mãe abnegada pra encarar aquela uma hora de fila na xerox por mim, admito.
Escrito por Lílian Honda às 21h51
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Ah, verão...
Olá! Alguém em casa? Pois hoje voltei a este empoeirado espaço para fazer uma confissão da maior relevância: pela primeira vez, desde meus saudosos 18 aninhos, usei biquíni! E não pensem que foi porque suei a camiseta até resvalar na desidratação de tanto malhar. Pelo contrário, acumulei umas reservas pro inverno, se é que me entendem. Ah, nem vem: aposto que vocês encheram a cara de peru com castanhas e leitão com panetone tanto quanto eu. A despeito disso, ou talvez por isso mesmo, tive uma iluminação ― os mais maldosos diriam insolação (“os”, não, “as”, porque só mulher é que acha que a gente está gorda) ― e fui logo comprando um biquíni vermelhão, daqueles que só dá pra olhar com óculos de sol de tão ofuscantes. Afinal, a quem a gente quer enganar embrulhada em maiô escuro, por mais fashion que seja o modelito? Na melhor das hipóteses, sua barriga vai parecer uma lâmpada leitosa gigante depois do bronzeamento e todo mundo sabe como a cor branca tem a capacidade incrível de aumentar as coisas. Ignorando solenemente a questão estética e o espelho do provador da loja, nem pisquei. Refestelada à beira da piscina, percebi o quanto a experiência estava sendo libertadora, principalmente quando baixou uma meditação solar que me levou a concluir que a vida é curta e os verões não serão tantos que me permitam desperdiçá-los com opinião alheia e excesso de autocrítica. Recomendo. Se é que mais alguém além de mim tem vergonha de usar biquíni em terras tupiniquins. O irônico de tudo isso é que não abri mão do meu filtro solar com fator de proteção 60 em várias camadas sobrepostas, porque, como qualquer moça bem informada sabe, essa brincadeira de assar em fogo lento acaba com a pele. Ah, sim: juro que daqui a uns vinte anos, arriscarei um topless.
Imagem: Seated Bather, de Renoir
Escrito por Lílian Honda às 16h41
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De paixão, arrebatamento e fio dental

Ticiano, "Amor Sagrado e Amor Profano" (1514)
Que coisa paradoxal é a paixão.
Estou aqui pensando com meus botões (de madrepérola, comme il faut) que grande parte da nossa vida é dedicada à busca de paixão, aquela fase entre solitária e esperançosa de gravidez de afeto. É precisamente nestes períodos em que damos o melhor de nós (não, não é aquilo que você está pensando que damos. Isto é, também damos aquilo, mas tou falando de outra coisa. Não me confunda): emagrecemos, caprichamos nas roupas e nos cremes, vemos os amigos, saímos mais de casa e temos até tempo para ler de montão. Tudo porque estamos à espreita de um candidato a cara-metade, com saudade da paixão e cheios de fé num mundo melhor (aquele dos outros, dos apaixonados).
Aí, a gente se apaixona por aquele ser especial, ou talvez nem tão especial assim, mas fantasia é tudo nessas horas. É o nirvana. Encanto. Arrebatamento. Euforia. Muita poesia (ruim). Bem, pelo menos por um tempinho.
O diabo é que, a partir do exato momento em que a paixão se instala, ela também começa a esfarelar. A gente se permite andar de pantufas de oncinha pela casa. Deixa de lado os cremes porque são grudentos e têm gosto ruim, segundo opinião de quem lambe. Roupão ou roupa nenhuma viram o uniforme oficial da vida privada. Não há salvação: a intimidade chega arrastando um balaio de coisas embaraçosas e pouco estéticas.
É claro que a gente não nota na hora. A gente tá achando tudo lindinho, até ver o outro usando fio dental. Nos dentes. Sim, porque o outro tipo ainda demonstraria algum interesse em manter acesa a chama do sex appeal.
Pode apostar: tudo isso que parece agora bacaninha e meigo prenuncia o começo do fim. Daqui a pouco, você estará suspirando novamente de saudade da paixão. Uma novinha em folha, claro.
Escrito por Lílian Honda às 20h15
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O penico de Napoleão
Eu não me canso de dizer que todo cuidado é pouco na escolha de seus objetos pessoais. Aqui vai um exemplo da relevância do tema: a casa de leilões britânica Bonhams estará leiloando no mês que vem, em Londres, uma coleção de objetos que lembram o exílio de Napoleão Bonaparte na ilha de Santa Helena.
A principal peça da coleção à venda é um penico fabricado para o então ex-imperador, mas nunca chegou às suas mãos – ou bunda. Como celebridade é sempre celebridade (e nunca interessa por que razão), o artesão que recebeu a encomenda quis caprichar e teve a brilhante idéia de adornar a peça com uma coroa de louros, design considerado pouco apropriado pelo príncipe regente da Inglaterra, em se tratando de objeto destinado a um sujeito deposto e preso.
Assim, o penico foi vendido a um industrial. Seus herdeiros deverão faturar algo em torno de 2.000 euros pelo recipiente de argila. Nada mau para um reles penico, némesmo? Imagine se fosse um cetro, uma coroa, um bronze maneiro, um livro autografado, um quadro assinado ou mesmo uma fralda de seda com monograma imperial bordado. Mas, não, é um singelo penico de argila que nunca chegou a conter as imperiais “necessidades” (imperiais em mais de um sentido, no caso).
Então, nunca se sabe se aquele abajur brega de resina que vc comprou numa crise de mau gosto na feirinha da Praça Benedito Calixto vai ser a sua marca para a posteridade. Agora, se você ama o sabor de ironia histórica que há nisso tudo, vá em frente: esbalde-se nos brechós, nos camelôs e na Camicado, sem medo de pecados estéticos.
Imagem: William Holman Hunt, "Isabella and the Pot of Basil"
Escrito por qualquer uma às 15h20
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